Os pólens e as polinoses do outono

Seg, 14/09/2015 - 14:30
Pollens and Autumn allergies

Pelo Dr Jacques Robert

Os cólquicos nos prados, é o fim do verão. Para os escolares, é o momento do regresso às aulas. É o fim do calvário para os alérgicos às gramíneas, os fenos foram cortados. No entanto, alguns pacientes ainda têm, no outono, todos os sintomas da “febre do feno”. Eles são sensíveis aos pólens das “plantas herbáceas”.

Os pólens e as plantas alergizantes no outono

Para que um pólen seja alergizante ele deve ser leve, abundante da região, transportado pelo vento e anemófilo. As plantas fecundadas pelos insetos, entomófilas, são mais sedutoras mas raramente responsáveis pela alergia. Da mesma forma, o cólquico citado na introdução, não é alergizante, ele é hermafrodita!

As herbáceas são uma família heterogénea que reúne plantas muito sensibilizantes. Elas são consideradas ervas daninhas e o pico de produção polínica escalona-se, de acordo com as regiões e as espécies, de agosto a outubro.

Algumas palavras para conhecer as principais espécies

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A flor da tanchagem

A tanchagem (Plantago, em latim) lanceolada, é uma planta dos campos e das relvas com folhas ditas em ponta de lança ou em orelhas de lebre. Sua responsabilidade nas manifestações alérgicas é muitas vezes mascarada pela das gramíneas.

 

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Parietária num velho muro

A parietária é uma urticácea que espalha seus talos avermelhados agarrados aos velhos muros do sul de França. Deve-se a ela muitas das sensibilizações severas visto que o período de fecundação é o mesmo do fluxo migratório dos veraneantes.

 

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A artemísia em flor

A artemísia declina-se em várias espécies e o seu nome vem da deusa lunar Ártemis que a teria supostamente descoberto. A artemísia comum ou vulgar é a herbácea mais corrente no hemisfério Norte. Sua polinização dura 4 a 6 semanas e conta-se cerca de 160.000 grãos de pólen por miligrama de artemísia! Ela aprecia os solos ricos em nitratos, os terrenos baldios, os escombros e as beiras de caminhos.

A crença polular atribuía à artemísia o poder de “apressar os meses das mulheres e de ajudar nos partos...”. As artemísias aromáticas são as mais procuradas e às vezes cultivadas: o Genepi, colhido a 3.000 metros de altitude faz parte da composição secreta do licor dos Chartreux; o Estragão, utilizado para cozinhar as aves e temperar o molho Choron; o Absinto, mais tóxico do que alergizante...

 

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A ambrósia

A ambrósia ou Ambrosia artemisiifolia vem da América do Norte. Ela tornou-se muito invasiva no vale francês do Ródano. Por ser pouco exigente, ela coloniza instantaneamente qualquer espaço não cultivado e implanta-se assim que passa o buldózer. Sua presença ultrapassa atualmente a região de Lyon, tanto nos campos quanto em meio urbano.   

Ela cria um verdadeiro problema de saúde pública. Os parlamentares tomaram consciência do problema.

Os sinais clínicos da polinose do outono

Os sintomas podem se manifestar a qualquer momento. Evidentemente durante um passeio no campo, mas também na cidade, a domicílio, sempre com a aparência de uma rinofaringite .

A rinite: os sinais da rinite alérgica são reunidos sob a apelação “PAREO”, acrónimo que também faz pensar nas férias: 

    P: prurido; o nariz que coça
    A: anosmia; perda do olfato, muito rara na criança, invalidante no adulto e traduz uma forte alergia
    R: rinorreia; o nariz pinga, a criança funga
    E: espirro, muitas vezes repetidos, em salva
    O : obstrução; o nariz entupido, é muitas vezes o sintoma mais difícil de tratar

A conjuntivite: Ela acompanha a rinite e fala-se aliás de rinoconjuntivite alérgica. A criança diz “está coçando, está picando, está incomodando”. Ela tem a sensação de grãos de areia sob as pálpebras. A conjuntivite evolui de acordo com a meteorologia, ela melhora (como os outros sintomas) se a estação é chuvosa. Ela também é atenuada se a criança aceitar usar óculos de sol quando sair

A tosse: Existe provavelmente uma tosse banal, dita alérgica, associada a esta rinoconjuntivite. Mas a vigilância é necessária quando os ataques de tosse acontecem de noite, logo após um esforço ou ao atravessar um terreno em pousio. Pode tratar-se de uma tosse espasmódica, equivalente à asmática. Toda criança que tosse, portadora de uma polinose deve fazer uma Exploração Funcional Respiratória (EFR), para despistar uma asma

A asma: se manifesta por uma tosse, pieiras, chiados e um desconforto respiratório. O nariz está no posto avançado da agressão alérgica, ele se defende, ele fica entupido e pinga como se quisesse criar um obstáculo aos pólens. Às vezes ele fica saturado, particularmente nas crianças com antecedentes de bronquiolite ou com tosses reincidentes. O resfriado inicial complica-se com uma inflamação da mucosa de toda a árvore respiratória. O agressor alérgico desencadeia então uma crise de asma.  Daí a expressão: “desceu para os brônquios”.

Encontra-se os mesmos sintomas apresentados na primavera pelos alérgicos às gramíneas: a febre do feno

As armadilhas na interpretação clínica da polinose do outono


Setembro também é, como dissemos, o mês do regresso às aulas. É então o regresso para os vírus das infeções da rinofaringe e respiratórias baixas. Os sintomas alérgicos e infeciosos são parecidos. Essas duas causas produzem inflamação, por conseguinte um nariz entupido, uma tosse, um desconforto respiratório. Muitas vezes a criança tem um  diagnóstico equivocado de alergia à ambrósia.

A memorizar:

  • Não há febre nos sinais da alergia. Pode haver no início dos casos infeciosos.
  • Na rinite alérgica os espirros são em salvas e os olhos têm frequentes irritações, os anti-histamínicos diminuem nitidamente a sua intensidade.
  • No final de outubro as herbáceas terminaram de polinizar, os sintomas devem desaparecer.
  • Identificar facilmente os picos de polinização no Boletim alergológico polínico, publicado em França pela RNSA (rede nacional francesa de vigilância aerobiológica): www.pollens.fr  

Em setembro, as noites começam a se tornar mais frescas, os apartamentos se calafetam, as janelas se fecham, o aquecimento coletivo surge às vezes no final do mês e assim os acarídeos se reproduzem...
Em caso de dúvidas sobre as causas, consultar um alergologista; os prick-tests são indolores, têm um bom valor preditivo positivo e são lidos em 15 minutos. 

Pollens and Autumn allergies

Prick-test

Os pólens do outono e as alergias cruzadas


Para compreender as alergias cruzadas, tomemos um exemplo, entre os primeiros descritos:

  • O biologista consegue pôr todo mundo de acordo: existe um parentesco de estrutura (as proteínas se parecem sem serem idênticas) entre um alérgeno da bétula (chamado Betv1) e um alérgeno da maçã (Mald1). O sistema imunitário do alérgico identifica esta semelhança e o paciente é incomodado tanto pelo pólen quanto pela fruta...
  • Para o botânico não existe nenhum parentesco entre a maçã e o pólen da bétula, o que é também evidente para todos nós
  • Desde então,  inúmeras publicações descreveram esses cruzamentos e fizeram o seu repertório. Admete-se atualmente que os pacientes alérgicos aos pólens têm 3 vezes mais alergias alimentares e essas alergias concernem as frutas e os legumes. 

Os principais tipos de alergias cruzadas documentadas na literatura científica com os pólens de herbáceas são os seguintes:  

  • Pólen de artemísia e aneto, cenoura, cuminho, aipo, coentro, funcho, salsa
  • Pólen de ambrósia e banana, melão, melancia, líchia
  • Pólen de tanchagem e melão

Figuram em negrito as associações mais frequentes; evidentemente essas ligações perigosas não são obrigatórias num mesmo indivíduo. Para um conjunto de indivíduos alérgicos aos pólens de artemísia certos estudos mostram até 50% de sensibilização ao aipo (testes positivos)
Ao ingerir alimentos responsáveis por alergias cruzadas as manifestações descritas sob a denominação “síndrome oral” são as seguintes: comichões nos lábios e na boca tendo, às vezes, inchaço dos lábios ou mesmo da garganta. Esses sinais só necessitam um tratamento antialérgico simples (anti-histamínico). Se a ingestão do alérgeno for grande ou se o paciente já é conhecido como asmático, as reações podem ser rápidas e violentas: crise de asma aguda grave, urticária difusa com edema das mucosas (dito de Quincke), e até um choque anafilático que coloca em risco o prognóstico vital. O tratamento é a adrenalina. Uma criança ou um adulto que apresente uma alergia associada à artemísia/aipo deve estar sempre equipado com adrenalina.

Conselhos para o tratamento


Evitar a exposição excessiva aos pólens

O tratamento evidente de qualquer alergia é a evicção, mas é impossível erradicar os pólens! Entretanto,é possível limitar exposições muito grandes:  

  • A criança francesa originária da região Rhône-Alpes, se possível, só deve voltar no finalzinho das férias da casa da avó!
  • Prudência nos dias quentes e ensolarados, evitar os piqueniques e só arejar o quarto no cair da noite
  • Andar de carro com os vidros fechados, um filtro de pólen funcional
  • Evidentemente, se possível, passar férias no sul, a beira-mar. Senão, a piscina municipal é um excelente programa nos dias de vento e picos polínicos (o pólen adere na superfície da água)

Aliviar os sintomas

Os anti-histamínicos (ou anti-H1) por via oral (ingeridos) são o tratamento de base. Atualmente eles são administrados como tratamento de fundo uma vez por dia, e a dose pode ser duplicada (manhã e noite) nos dias de exacerbação. Eles são completados com tratamentos locais:

  • Colírios anti-histamínicos ou antidegranulantes para os olhos. Os colírios com cortisona para as conjuntivites alérgicas só serão administrados a uma criança com a estrita prescrição de um especialista
  • Pulverizações nasais de corticóides se os anti-H1 não forem suficientes para melhorar a obstrução nasal. Eles são autorizados na criança.

Tratar a doença

A dessensibilização é o único tratamento específico da alergia. Este tratamento é proposto atualmente pela via sublingual (as gotas são depositadas sob a língua) e é feito em cura pré-sazonal (antes da estação polínica). Esta dessensibilização deve durar pelo menos 3 anos. Desde o primeiro ano devem surgir melhoras significativas.  

O objetivo deste tratamento é induzir uma tolerância progressiva ao ambiente polínico 


Equipar os pacientes de risco

O estojo de emergência de uma criança alérgica a este tipo de pólens deve conter a adrenalina se:

  • Trata-se de um asmático habitual, que também apresenta uma alergia alimentar
  • Trata-se de um paciente que associa uma simples rinoconjuntivite às herbáceas e uma alergia alimentar ao aipo ou às especiarias ou ao melão.

A adrenalina apresenta-se sob a forma de canetas auto-injetoras: o ANAPEN®

Pollens and Autumn allergies

ANAPEN® : 

  • Crianças de 15 a 30 kg, 0,15 mg, caneta amarela    
  • Crianças acima de 30 kg, 0,30 mg, caneta verde

Memorizar para a injeção na coxa: “eu retiro tudo que é preto e apoio no vermelho, durante 10 segundos”

Depois das herbáceas

O mês de outubro se prolonga, as cores barrocas do outono suavizam a paisagem, as plantas estão a dormir e não vão mais se reproduzir antes do novo ano. A última árvore a soltar grandes quantidades de pólens é o cedro do Líbano. Ela dispersa uma verdadeira chuva de enxofre sobre os capôs dos carros, pólen pesado, pouco alergizante. A folha de outono “numa ronda monótona, cai a turbilhonar”, o alérgico à ambrósia respira melhor e dormirá sem barulho. Para o alergologista como eu, a floração recomeçará após os flocos de neve do Natal; em fevereiro, a avelaneira guarnecerá os seus amentilhos de pólen dourado para dissipá-los ao vento. Assim perduram as espécies.     

 

Pollens and Autumn allergies

Dr Jacques ROBERT

Pediatra Alergologista

Consulta de educação terapêutica na dermatite atópica